Há uma imagem irrepreensível: ser a parentalidade um fardo. Carregar os filhos é incumbência jamais negligenciada por quem deseja assumir-se como mãe ou pai. Um peso. Talvez seja esta metáfora uma espécie de espantalho na horta dos verdes e imaculados legumes contemporâneos: uma criança será a desordem no arranjo perfeito, drenará os recursos, tomará o tempo, orquestrará o imprevisível. Corvos no paraíso. E, sim, é exatamente o que ela fará desde os primeiros dias e, muitas vezes, até os nossos últimos. Nem sempre, mas acontece.
De modo curioso, este dilema afeta exatamente o andar de cima da pirâmide social, lá onde abunda educação, cultura e outros valores bem mais tangíveis. Quem mais tem, tem mais dificuldade em dividir. Dividir-se e a se doar. Aos que tudo falta, a nova vida traz desafios ancestrais e persistentes. Drásticos. É a natureza interessada mais na preservação da espécie do que na manutenção do status quo. Uma cruel fertilidade em contraposição à estéril fobia ao compromisso. De um lado, as escolhas. Do outro, a ausência de tudo, inclusive de escolhas. Berço de dupla cabeceira.
É quando me recordo da Teoria de Malthus. Segundo o pensador inglês, a população cresceria em progressão geométrica; a produção de alimentos, aritmética. Portanto, fome e miséria seriam um legado quase imediato caso não houvesse um freio reprodutivo eficaz. Porém, os avanços tecnológicos impactaram a produção mundial de alimentos de modo a, se não negar, ao menos retardar para um futuro incerto a realização do vaticínio malthusiano. E o curioso: exatamente onde não há carências, o crescimento populacional é negativo. E o nada curioso: lá onde a tecnologia é uma foto na revista, a fome se faz presente.
Tempos contraditórios? Talvez. Ainda assim, uma certeza é constante: romantizar o passado e demonizar o futuro, ou vice-versa, não resolverá os dilemas presentes. Em que pese ter eu três filhos, acima da média de meus pares mais próximos, acho que tanta vida é o quinhão que me reservou o destino. Só lamento quando incautos erram feio na metáfora. Crianças são colibris.

