Olhar na encruzilhada

É muito frequente estarmos diante de lindas fotos de crianças em situações em que isso destoa do ambiente. Lá está uma cidade devastada, e um olhar doce; um cenário de guerra, e um sorriso franco; um entorno de fome, e um abraço amoroso. É quase como se a infância imprimisse um filtro de esperança revelado pelo fotógrafo. Como se ela estivesse ali para dizer (e não para escutar): vai passar, para tudo há de se dar um jeito. Na constância, a presença da fé.

Não é o que encontramos na imagem obtida por Carlinhos Rodrigues no acampamento Encruzilhada Natalino, um marco no movimento por reforma agrária datado do final dos anos 1970, início dos 80. Há ali um grupo com feições marcadas pela incerteza. Olham para adiante com uma mistura de dúvida, incredulidade, tristeza e cansaço. Atrás de si, uma choupana de palha onde, provavelmente, todos dividem uma só peça, ora cozinha, ora quarto de dormir. À frente, instáveis promessas.

Logo adiante, em 1985, a ocupação definitiva da Fazenda Annoni seria considerada um marco para os movimentos sociais cuja bandeira era o assentamento de famílias de colonos para cultivarem a terra – inclusive o próprio MST. Simultaneamente, a Assembleia Nacional Constituinte e o voto para Presidente da República também chegariam, com as crianças tornadas jovens num país pacificado, ainda que divergente em muitas questões – o que, antes de tudo, é o esperado numa democracia.

Estariam, então, as crianças equivocadas? Duvido. Quem sabe num processo de amadurecimento precoce, despidas da candura e da alegria inocente. Brutalizadas. Exaustas. Ainda assim, é possível supor que a única que não olha para a mesma direção dos demais – ensimesmada em alguma distração – seja aquela que contemplaria a regra. Justamente a menor delas, ainda um bebê. Agora sou eu, porta-voz de uma infância ingênua, a tentar resgatar a fé ao batizar o bebê de Esperança.

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