– Bom dia!
– Bom dia, senhora! Ao dispor.
– Essa imagem da Nossa Senhora dos Navegantes, quanto é?
– Essa aqui? Ó, pode segurar. Já sinto que ela é sua. Ela foi feita por artesãs ligadas à paróquia. Uma por uma, todas pintadas enquanto toca o disco do Padre Zezinho. Trabalho voluntário da mais alta qualidade. A renda se reverte para as causas sociais, aos menos favorecidos. A senhora nem imagina quanta gente é grata por sua escolha.
– E o valor?
– Inestimável! Raros são os fiéis que possuem uma dessas em seus lares. Há notícias da criação de pequenos recantos de oração destinados a abrigar uma imagem igual a essa. Contam, e não posso garantir ou duvidar, que uma fazendeira ergueu uma capela inteira ao lado de casa para colocar uma igualzinha no lado direito do altar.
– Que lindo! Mas, e o preço?
– A pergunta é outra, madame: quanto custaria proporcionar a centenas de crianças uma refeição todos os dias? Ter delas o pensamento elevado aos doadores da causa a cada garfada? Receber de volta essa gratidão justifica nossa passagem por este vale de lágrimas. Estimo que cada um dos possuidores de uma imagem da Nossa Senhora está, agora mesmo, neste instante, inundado de fervor e…
– Ah, não sei se terei tanto dinheiro aqui na bolsa.
– Como, minha senhora? Eu ainda nem disse o preço!
– Então, qual é o preço?
– Muito menos do que imagina!
– Em reais, isso fica por quanto?
– Reais… o que são reais diante de obra de Deus a inspirar nossas artesãs? Fé, dona. Fé! E caridade, a mais bela maneira de retribuir por nossa saúde. A senhora tem saúde?
– Tenho sim, graças a Deus!
– Então sabe que a fé não se mede em dinheiro. Muito menos a bondade.
– Tem razão, pode ficar. Outro dia eu junto mais dinheiro e volto aqui. Obrigada, moço.
– Ei, ei, não, espera, dona, dona, ela já é sua, volta…
[clic]
– Então? Onde você acha que falhou, meu filho?
– Não sei… Onde?
– Quando ela falou da bolsa. Quando fala em bolsa já está no papo. Precisa saber se ela está disposta a abrir o coração, diz apontando discretamente para a bolsa. Aí atira uns R$ 50 e abre a negociação em vantagem: “Pode ser mais, é claro. Pense nas crianças”. Certo? Gravou outro tropeço?

