Desde os tempos mais remotos, o direito à terra sempre foi uma questão de poder, sobrevivência e pertencimento. Quando os primeiros grupos humanos passaram a cultivar e permanecer, algo profundo mudou: a terra deixou de ser abrigo e tornou-se símbolo de domínio. Os caçadores-coletores, que antes vagavam livres, aprenderam a cercar seus espaços, a marcar territórios e a defender o chão como extensão da própria vida. Assim nasceram as primeiras fronteiras — invisíveis, mas já carregadas de disputa.
Com o avanço das civilizações, reis, faraós e tiranos, entre outros, declararam-se senhores absolutos do solo e do subsolo. Concediam terras em troca de lealdade, serviços ou favores, instaurando um sistema de privilégios que atravessaria milênios. A posse deixou de ser um direito natural e passou a ser uma concessão política. A agricultura, que alimentava o corpo, começou também a alimentar o poder. E onde o poder se concentra, a desigualdade cria raízes.
A propriedade privada surgiu lentamente, mas de modo cruel. Os pequenos proprietários, pressionados por impostos e dívidas, foram entregando suas terras aos grandes senhores em troca de proteção. O que era direito tornou-se dependência, e o que era liberdade virou submissão. Esse modelo, repetido em diversas civilizações, consolidou a ideia de que a terra é de quem pode, não de quem nela trabalha.
No Brasil, o enredo foi semelhante — e talvez mais trágico. Desde o período colonial, as sesmarias foram distribuídas como presentes de nobreza. Os que vinham com títulos e influência recebiam vastas extensões; os pobres, os índios e os africanos libertos ficavam à margem, condenados ao nomadismo. O país cresceu com os pés fincados na terra, mas com o coração distante da justiça. Cada fazenda cercada representava um sonho roubado, uma esperança confiscada.
A concentração fundiária consolidou-se com a República, quando documentos falsos e fiscalizações precárias legalizaram o roubo. Latifúndios imensos nasceram da caneta e da corrupção. As elites agrárias transformaram o solo fértil em instrumento de poder e controle. E a monocultura de exportação, que prometia progresso, deixou a mesa do povo vazia. O campo prosperava em cifras, mas empobrecia em dignidade.
Enquanto isso, milhões de brasileiros migraram para as cidades, expulsos pela fome e pela falta de oportunidades. Nasceram as favelas, os cortiços e a periferia que ainda hoje carrega o preço da concentração de terras. A pobreza urbana é, em essência, uma ferida rural que nunca cicatrizou. A soberba dos grandes proprietários, aliada à impunidade, perpetuou a violência e a exclusão. Povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais seguem resistindo, entre cercas e ameaças.
Neste abril, a Marcha Estadual “Para o Brasil Alimentar, Reforma Agrária Popular”, organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, reacendeu a discussão sobre quem tem, de fato, direito à terra. O MST, muitas vezes incompreendido, não luta apenas por hectares, mas por justiça social, soberania alimentar e dignidade. Suas bandeiras vermelhas são o eco de séculos de silêncio e submissão.
Essa marcha nos faz recordar o movimento na Encruzilhada Natalino, há 44 anos, quando centenas de famílias acamparam sob a mira de fuzis em plena ditadura militar. Mas o que eles chamaram de subversão era, na verdade, um grito humano por sobrevivência. A Encruzilhada, crucial para a criação do MST, tornou-se símbolo de resistência e fé, lembrando-nos que a terra, quando negada, também sangra.
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p style=”text-align: justify;margin: 1.0pt 0cm 6.0pt -7.1pt”>Hoje, o Brasil ainda vive essa contradição ancestral: um país vasto e fértil, mas injustamente dividido. A luta pela reforma agrária não é apenas uma questão econômica, é também moral e histórica. Enquanto poucos seguem acumulando hectares e lucros, milhões seguem acumulando fome, desalento e expectativas. E talvez seja nessa esperança — teimosa e persistente — que o Brasil possa, um dia, reencontrar sua verdadeira raiz: a da partilha.

