O nome de passarinho soava impróprio. Coronel Curió, alheio a isso e a muitas outras coisas, olhou em volta: cabanas de lona, galinhas magras, roupas no varal, cheiro de feijão ralo. Para ele, era só desordem. Para elas, quem sabe o mundo.
Cinco crianças teimavam diante do militar. Uma delas deu as costas, tinha mais o que fazer — bonecos de barro, por exemplo. As outras quatro, sujas e estranhamente parecidas, fitavam-no diretamente. Parecia um desafio: quem piscar, perde. Além delas, as mães eram o front — só elas, os pais estavam mais adiante confrontando a milícia.
— Se não saírem, terei de agir — disse ele, finalmente — O governo não quer acampamento por aqui. Essas terras têm dono, gente importante, e a estrada precisa ficar livre…
— E nós não somos gente, coronel? — perguntou uma mulher de rosto cavado de sol, segurando um balde de água pela metade — Ou só contam os ricos, sua laia e seus bois?
— São gente sim, mas gente fora do lugar — respondeu ele, entortando o queixo — Os donos querem ajudar. Há assentamentos prontos noutro canto, com escola, posto de saúde e até igreja.
— E cerca — completou uma vozinha fina atrás da mulher. A menina, descalça, segurava uma lata amassada, à guisa de brinquedo — Lá tem cerca, né, tio?
— É pra segurança, pequena.
— A segurança de quem, coronel? — perguntou a mulher do balde — A nossa ou do patrão?
O coronel respirou fundo. O cheiro de café requentado, fumaça de lenha e pólvora penetrou nas suas narinas. Um guri homem, pouco maior no tamanho e rosto endurecido, olhou para ele.
— O senhor é quem manda atirar na gente?
— Eu… só mantenho a ordem. Se não saírem, vou usar a força — repetiu engasgado.
A mulher mais velha ergueu o rosto, o olhar parado de quem já cedeu demais.
— Pois use sua força, coronel. Vamos usar a nossa. Isso aqui começou com uma caminhada, virou família e só termina com terra pra morar, dignidade e comida. Sem garantia, ninguém sai.
O vento soprou, levantando poeira. Um canto murmurado se fez ouvir, improvisado pela criança que deu as costas, sentada na terra dura com sua família de bonecos. Outras ali perto corriam atrás de um cachorro magro, o mesmo que dividia o jantar com elas. As outra quatro, as parecidas, fincaram pé. Curió recuou, subiu no jipe e deu comando de retirada. A poeira os engoliu, ao menos por hora. Atrás ficou a Encruzilhada Natalino, seus homens, mulheres, filhos e filhas… e um campo inteiro germinando teimosia, luta e fé.
Era 1978, tempos de Ditadura. O que começou como um suspiro acampado numa curva esquecida da BR-386, no Rio Grande do Sul, virou resistência que virou consciência. Semente de um Movimento que, apesar dos Curiós, encontrou ordem, chão e muita gente. E com isso fez seu mundo.

