Imaginário

Sempre pensei em amigo imaginário como uma pessoa ou criatura inventada, tipo Calvin e Haroldo. Mas confesso que é algo maior, além da lógica e da ciência. Comecei a acreditar em fantasmas camaradas. Não esses que usam lençol branco e arrastam correntes, mas os boa praça que chegam de repente, fazem barulho e movem as coisas de lugar.

Eu preparava o almoço enquanto Ritinha brincava com suas bonecas e ursinhos. Estava tudo silencioso até que escutei um murmúrio e, em seguida, a tigela de salada caiu no chão. Levei um susto. Vi um vulto sair correndo. Fiquei gelada. Larguei a colher e o segui até a sala. Parei. Observei.

Ritinha começou a falar sozinha, explicando o cardápio do almoço como se fosse uma Chef mirim.

Ritinha, tá falando com quem?

Com o Carlinhos, mãe. Meu amigo. Cê não tá vendo?

Que amigo, menina? — perguntei, olhando ao redor.

Ô Manhê, esse aqui ó, sentado ao meu lado.

Olhei o sofá vazio. Ritinha sentada. Ninguém ao lado. Uma almofada afundada. — talvez minha imaginação.

Não tem Carlinhos, nenhum menina. Não viaja!

Ele falou que derrubou a salada, porque cê não fez brocólis. Ele ama brocólis.

A lógica foi embora e resolvi entrar no jogo.

Fala pro Carlinhos que hoje não tem, mas amanhã terá, tá bom?

Voltei pra cozinha, fingindo naturalidade e terminei o almoço. Quando chamei Ritinha pra almoçar, ela pegou mais um prato no armário.

O Carlinhos vai almoçar com a gente. Ele quer sentar na ponta da mesa.

Decidida a não contrariar o “Carlinhos”, servi o prato dele e o da Ritinha.

Manhê, o Carlinhos falou que ainda tá com fome. Quer mais feijão em cima do arroz.

Fala pro Carlinhos que o prato dele tá cheio, que ele não comeu nada.

Comeu sim. Tudinho. Tá limpinho. E ele falou que não é surdo. Que ele tá te escutando.

À tarde trabalhei Home office, só parando pra preparar o lanche da Ritinha e do amigo: Coca-Cola e bolo de chocolate. Voltei ao trabalho e Ritinha continuou tagarelando como nunca a ouvi antes.

Ritinha, o Carlinhos gostou do lanche? — minha filha olhou pro amigo e afirmou com a cabeça.

Ele disse que gostou, mas que prefere suco de laranja. Criança não bebe refrigerante.

Concordei. Carlinhos até que era uma boa influência pra Ritinha. Desde então, minha filha come frutas, legumes e saladas.

 

À noite, Ritinha avisou que o Carlinhos iria dormir com a gente. Disse que já era tarde pra ele ir pra casa. Deixei a luz do abajur acesa, pois ele tinha medo do escuro.

Ô Manheeeeeeeê! — chamou a Ritinha. — O Carlinhos quer um travesseiro só pra ele.

Pela primeira vez, minha filha não acordou assustada. Dormiu a noite toda tranquila, como se alguém a protegesse.

Então comecei a gostar do Carlinhos. Pra mim, ele já era parte da família.

 

Um dia, Ritinha chegou da escola e avisou:

O Carlinhos foi embora mãe. Te deixou um beijo.

Mas assim, sem se despedir?

É que ele foi visitar a mãe e os irmãos dele lá na colônia.

E ele não falou mais nada? — perguntei com a voz embargada.

Ah, ele disse que volta logo. Que a vó Irena traz ele aqui pra nos fazer companhia

Não segurei mais. As lágrimas escorreram lembrando da minha mãe.

Passou um mês até eu escutar a Ritinha falando sozinha outra vez.

O Carlinhos voltou filha? — perguntei quase sorrindo.

Não, mãe. Esse é o Pedrinho, amigo do Carlinhos.

Prazer Pedrinho! Quem é amigo do Carlinhos, é meu amigo também. Vou cozinhar um brocólis bem crocante pra ti.

Ô Manhê, não viaja. O Pedrinho não gosta de brócolis. Ele prefere um x-burger com fritas. E brigadeiro de sobremesa.

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p class=”western”>E lá fui eu fazer o almoço, rezando pro Carlinhos voltar pra casa.

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