Ainda somos terra*

Um índio não virá de uma estrela colorida e brilhante,

Ele já está aqui, cansado, firme e desafiante,

E caminha entre prédios, fumaças e discursos,

Na América, num triste instante.

 

Depois de derrubada a última árvore sagrada,

E invadida a terra, e queimada a morada,

Mais esquecido que a mais esquecida

Das memórias antigas silenciadas.

 

Está, impávido que nem a fome ali, está, eu vi,

Resiste como Peri, sangra e ri, eu vi,

Tranquilo e infalível como o rio que segue, eu vi,

O axé que não se entrega, eu vi.

 

Um índio cansado em pleno corpo físico,

Em todo sólido, todo gás e todo líquido,

Em terra, sangue, dor, suor, em gesto e grito,

Em sombra, em sol, em sonho mítico.

 

Num ponto devastado entre o Atlântico e o Pacífico,

Do asfalto quente, sim, se erguerá o índio,

E as coisas que ele diz, ninguém quer escutar,

Mas são as mesmas desde o início.

 

Está, impávido que nem a fome ali, está, eu vi,

Resiste como Peri, sangra e ri, eu vi,

Tranquilo e infalível como o rio que segue, eu vi,

O axé que não se entrega, eu vi.

 

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Não será milagre, nem será exótico,

Mas o fato de o Brasil ainda negar o óbvio:

Que o índio não virá — o índio nunca partiu.

 

*Paródia da música Um índio, de Caetano Veloso.

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