O menino viu a câmera e o olhar brilhou. Fez um joinha e disse: tô pronto. Percebeu que eu estava encantada. Talvez meus olhos estivessem brilhando mais do que os dele. Fiz a foto, na verdade, várias fotos. Ao final, ele me ofereceu água. Era o que tinha a oferecer. Sua forma de agradecimento por eu ter prestado atenção nele. Crianças gostam de quem lhes dá importância. Poucos adultos valorizam isso. O garoto me fez lembrar de mim mesma em idade semelhante.
Sou daquela geração em que filho era destino. Ninguém escolhia. Acontecia porque os métodos contraceptivos eram falhos e porque adultos só seriam felizes se tivessem cônjuges e filhos – a família tradicional. Entretanto, ninguém ligava para os desejos e sonhos dos rebentos enquanto pequenos. Às vezes, nem depois de grandes. Educavam com rigidez e cobranças. A demonstração de afeto, em geral, se resumia a boas escolhas. O melhor colégio que coubesse no orçamento, atendimento médico e odontológico, a prática de um esporte, estudar uma nova língua. Não se ouvia falar em traumas da infância, psicoterapia, depressão e síndromes diversas. Isso porque os adultos não olhavam para o mundo interior das crianças. Limitavam-se a satisfazerem suas necessidades materiais.
De uns tempos para cá, especialistas vêm desvendando o universo infantil. Muitas descobertas e muitos artigos publicados sobre o tema. Todos passaram e enxergar as crianças. Perceberam o quanto elas são frágeis e suscetíveis aos desmandos dos adultos. Famílias foram comunicadas oficialmente de que são responsáveis, não mais só pelo conforto material, mas, principalmente, pelo bem estar emocional das crianças sob sua guarda. Crianças devem ser ouvidas e respeitadas. Elas têm direito ao lúdico. Brincar é preciso. Também necessitam de presença constante, afetividade, abraços e beijos. Não basta amar, tem que demonstrar interesse. Além de ouvi-las, é preciso interpretá-las.
Nunca, antes, tinha se ouvido falar em alienação parental. Nunca se tinha ouvido falar de ausência paterna como falta de responsabilidade afetiva. Dos homens era exigido o nome na certidão e o sustento; presença era opcional. E nem isso era possível em muitos casos. Houve uma mudança significativa em relação ao que é importante para a saúde mental de crianças e adolescentes. Definitivamente, a infância está na mira dos tratamentos psicoterapêuticos dos adultos. Dizem que nossa criança interior se apresenta em tudo o que somos e fazemos. Nossos medos e nossas dificuldades têm origem lá, na infância quase esquecida. Lá, no começo de tudo.
Meu encontro casual com o menino dos olhos de luz, tão feliz com meu interesse por ele, me lembrou da menina que fui. Na idade dele, eu era ignorada pelos adultos. Fingiam me ouvir, mas estavam com o pensamento longe, sempre com muitos afazeres. Toma aí um docinho, que mamãe está ocupada agora. Papai tem que ouvir as noticias, fica quieta. Fui salva por uma professora. Uma jovem adulta que tratava criança como gente grande. Era vizinha e juntava todas as crianças da rua na calçada, para inúmeras brincadeiras e conversas. Nunca estava ocupada para nós. Nem cansada ou sem paciência. Tenho felizes lembranças da infância com ela. Sua voz doce, seus desenhos coloridos e sua escuta atenta permanecem vivos em minha memória. Seu nome era Moema, mas bem poderia ser Candura.

