“Nas duas faces de Eva, a bela e a fera”
Rita Lee e Roberto de Carvalho
A maternidade é, sem dúvidas, o maior desafio feminino. Testa as mulheres em todos os sentidos, desde a decisão de ser ou não ser, e sendo, aceitar as primeiras discretas mudanças no corpo e no humor. Na sequência, as mudanças mais visíveis, que para algumas é motivo de orgulho e alegria, mas, para outras, sofrimento e não aceitação. Um processo difícil, especialmente para quem não tem um bom suporte emocional. Até que chega, então, a hora do parto, que pode ser um processo relativamente tranquilo, ou horas de dores contínuas, intermediadas por todos os tipos de pensamentos, dos mais nobres aos mais vis.
A chegada da criança traz uma nova fase, quando é imprescindível aquele apoio emocional. Na ausência dele pode surgir a fera. Mães que não se sentem capazes de cuidar e cumprir seus papéis, com dificuldades na amamentação e sentimentos de impotência diante do novo são levadas a estados de depressão. Em casos mais sérios, chegam a abandonar seus bebês nos lugares mais inóspitos, e, nos mais extremos, os sufocam, até calarem o choro que são incapazes de controlar ou suportar.
Na próxima fase, para as belas, é chegada a hora de equilibrar a balança do amor. Saber de antemão o que é permitido e o que não é. O que é problema e o que é normal. Também administrar o amor e a culpa. Aceitar que nem todo o amor do mundo supera a necessidade de impor limites e de prover materialmente. Não esquecer de que dela depende a formação de um cidadão.
Quando há um pai presente, pode ficar mais fácil. Mas nem sempre é assim. A psique humana é muito complexa. Alguns parceiros trazem mais confusão ao processo, não sendo
colaborativos, sendo até infantis, com demonstrações de ciúmes dos filhos e total falta de comprometimento com a nova família. E a bela precisa estar o tempo todo se equilibrando entre filhos e companheiro, o que pode causar muito estresse e depressão, fazendo ressurgir a fera. Entre o mar e o rochedo, a mãe fica quebrada, incapaz de tomar as melhores decisões. Muitas vezes descontando no filho — a parte mais frágil — todo seu cansaço e frustração. Algumas até abandonam a família por instinto natural de sobrevivência. E são crucificadas por isso. Isso que os machos frágeis fizeram a vida inteira, sendo compreendidos e perdoados.
Se em todos os seres, há o bem e o mal, e um forte instinto de sobrevivência, não seria diferente com mães. Fortificar a bela e apaziguar a fera depende muito da família e da sociedade, com apoio emocional efetivo, proteção às crianças e especialmente combate a famílias disfuncionais, onde se replicam comportamentos abusivos. Isso me parece um sonho ainda distante nos países onde reina a pobreza, a ignorância e a falta de interesse político no assunto.
Por enquanto, seguimos assim, entre o mar e o rochedo, com as duas faces de Eva.

