Sob as águas, um fio de luz

 

 

Texto

— Beatriz, isso são horas de chegar? Tu tá atrasada! A aula já começou tem quase meia hora! E hoje vamos estudar um conteúdo novo que vai cair na prova! 

— Ih, sora, minha casa tá embaixo d´água. Perdemos tudo, nem era pra eu tá aqui. Já nem sei mais quantas vezes isso já aconteceu, todo ano é a mesma coisa. Não aguento mais essa ilha. A ilha já era. Mas não temos pra onde ir, temos que ficar aqui mesmo, né? E enfrentar isso.  Toda vez que tem enchente é a mesma coisa. A gente já tá acostumada. A senhora viu como tá o centro? E o Gasômetro. Vai lá pra senhora ver. Tá o caos. Só por Deus, mesmo!

Fui.

A névoa dançava sobre o salão inundado, como se o ar ainda não tivesse compreendido o desastre. Dois vultos deslizavam lentamente sobre a água espelhada. Cada remada, um gesto de resistência. A antiga usina, antes barulhenta e cheia de vida, agora era um rio improvisado — um espelho de janelas partidas, de luz fria e de silêncios densos. Porto Alegre, cidade de pontes e pressas, tornara-se uma extensão do Guaíba. As ruas, agora canais. As casas, ilhas. E as memórias, barcos à deriva.

Os dois homens seguiam remando. Não falavam. O som das pás cortando a água bastava. Às vezes ouvia-se o pio de um pássaro perdido, às vezes apenas o chiado da esperança tentando não se afogar. Um deles olhava o reflexo das janelas e via nelas o céu — o mesmo céu que chorara por semanas sem descanso. O outro, com o corpo curvado, buscava o ritmo da maré que o destino impôs.

— Parece um sonho — murmurou o primeiro, sem saber se ainda era permitido falar de sonhos quando tudo estava submerso.

O companheiro apenas assentiu. Porque sim, havia sonho ali. Um sonho triste, pesado de lama, mas também um sonho de recomeço. A água levara muito: móveis, retratos, lembranças. Mas também lavara as pressas, os descuidos, as ilusões de solidez.

O Rio grande (do Sul) inteiro respirava pela boca, tentando não ceder ao cansaço. Porto Alegre, em sua imensidão ferida, erguia-se nas mãos de quem remava e de quem trazia ajuda. Essa vinha de todos os Estados do Brasil e até do exterior.

Muitos dias depois, o tempo começava a abrir lá fora. O sol insinuava-se pelas janelas altas e, por um instante, o salão escuro brilhou — como se as águas, finalmente, guardassem também um pouco de luz. E os dois seguiram, leves sobre o impossível. 

Porque quando tudo se dissolve, o que resta é o gesto: remar. 

Beatriz juntou-se a eles. E nos olhos dela vi um fio de esperança. 

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