Sheyla sempre teve um caso mal resolvido com o amor, ou melhor dizendo, nunca quis resolvê-lo. Criada em um lar onde os afetos eram mais platônicos do que profundos, sua referência vinha de uma linhagem de mulheres que, entre ditados de força e independência, aprenderam que amar demais era sinal de fraqueza. Os amores, no caso, eram como estações – bonitos, passageiros e jamais confiáveis.
Desde muito cedo, atravessou relacionamentos como quem passeia por corredores de um museu : com interesse breve, olhos atentos, mas sem tocar em nada. Gostava de se convencer de que não precisava de algo que fosse mais do que momentâneo. Tudo se resolvia com o afastamento necessário para que ela pudesse voltar ao seu centro, ao seu tempo.
Namorava por uns meses que, às vezes, beiravam um ano. Quando percebia planos, promessas, raízes, ela proferia seu veredito preferido : “ Eu preciso de um tempo ”. E dizia isso com a voz suave, quase uma canção. Era assim que terminava, sem drama, sem maiores explicações. O tempo era, afinal, a resposta que todos precisavam.
Foi assim com Marcos, que queria morar junto. Com Régis, que sonhava com filhos. Com Pedro que desejava mais do que somente finais de semana. Com Gustavo, que chorou. Sheyla não chorava. Sentia alívio.
Mas o tempo, que ela sempre usou como escudo, começou a se apresentar de forma diferente ao completar quarenta anos. Foi quando conheceu Luís. Ele chegou de mansinho, como uma brisa fresca num verão sufocante. Ele não parecia diferente de início, mas com ele, as horas ganhavam outra densidade.
Ela o conheceu numa livraria. Ele comentou sobre literatura latino-americana, e ela, que nunca foi de puxar conversa, se viu interessada. Saíram dali direto para um café, falaram sobre jazz e, depois, para outros cafés, trocaram ideias sobre diretores de cinema. Nos jantares papeavam sobre viagens, enquanto Luís a olhava com uma intensidade que a desconcertava e para repetidas noites de encontros tórridos.
Luís não cobrava. Não fazia planos demais. Era leve mas não superficial. Sheyla percebeu que gostava da companhia dele pela manhã, do cheirinho do café sendo passado enquanto ele assobiava. Sentia saudade durante o dia. Quando não mandava mensagem, ela esperava. E odiava esperar. Ao seu lado, Sheyla começou a sentir algo que nunca tinha experimentado antes : a sensação de querer permanecer mais tempo com alguém. Era estranho. As conversas deles eram longas, os silêncios confortáveis, e o toque dele a fazia sentir-se em casa.
No entanto, após um romântico jantar, como um jogo de espelhos, a realidade se apresentou de maneira irônica. Luís, com a mesma suavidade que Sheyla usava em suas despedidas, disse-lhe que precisava de um tempo. Precisava de um tempo para si, para refletir, para repensar a relação. Ele queria ficar sozinho.
Ela riu. Um riso breve, seco e sem humor. Sentiu o chão balançar, não de tristeza imediata, mas de espanto. Luís tentou explicar mais, mas ela já não escutava. Não de verdade. O silêncio se impôs entre eles. Essa frase me persegue, pensou ela, que não chorou na hora.
Naquela noite, Sheyla deitou sozinha. A quietude da ausência de Luís gritou mais alto que qualquer ‘tempo’ que pedira antes. Pela primeira vez, queria que o tempo parasse. Ou voltasse. Ou ao menos fosse generoso. Mas ele, como sempre, seguiu adiante.

