Talita sempre dizia que a vida era um grande jogo de paciência. Expert no assunto, ela sabia que o segredo era esperar o momento certo para dar o próximo passo. Mas, na verdade, seu grande macete não era a paciência – era a persistência.
No subúrbio rural, Talita morava com seu esposo, Zé, em uma casinha tão modesta que, se a geladeira tremesse, a porta da sala se abria. O banheiro era compartilhado com dois sapos e um gambá que se achavam donos do pedaço. Ali fora, tocavam a lida na lavoura de hortaliças e leguminosas, que não era exatamente uma mina de ouro, mas pelo menos garantiam o sustento e, às vezes, uma batata frita com refrigerante no fim de semana.
Era uma luta diária, mas uma luta com amor. Não bastasse o trabalho árduo, eles tinham filhos. Sete, para ser exato. Todos meninos com um ano ou menos de diferença – como se Talita tivesse uma fábrica de filhos que operasse em turnos. O problema era que, desde o primeiro berro do primogênito, Zé teve que dobrar o serviço. E quando o segundo veio ? Aí não teve mais jeito : o vivente praticamente começou a trabalhar para a roça, o campo, o sol e a lua.
Já Talita, de personalidade forte e uma visão de futuro que seria invejada até por filósofos, sabia que a coisa não poderia continuar assim. Não é possível que a vida deles seja só lavoura e mais lavoura, pensava ela. Não, ela não estava disposta a deixar que o destino dos meninos fosse definido pela quantidade de grãos de milho ou folhas de alface que eles conseguissem colher ao longo da vida. A educação, essa sim, seria a chave para libertá-los de um futuro de capinadas eternas, e é claro que ela não iria permitir que qualquer tempestade de dificuldades fosse um obstáculo. Não, ela não.
Quando os meninos chegaram na idade escolar, Talita virou carreteira de vocação. Botava todos na carroça como se fosse excursão para a roça do saber e levava para escola no vilarejo próximo. Enfrentava estrada de barro, galinha atravessando e um boi que insistia em participar do cenário todo santo dia, na chuva ou na poeira. – Segura a roça Zé ! O futuro está indo para a escola ! Gritava ela.
À tarde, ao invés de ajudar Zé na lavoura ou catar feijão, os meninos catavam matéria escolar. Estudavam tanto que parecia que cada um era o professor do outro. Talita, com seu sorriso discreto, dava instruções para que todos lessem a mesma página, repetindo várias vezes: “Nada de brincar, hein ? Estudem, porque na vida vocês vão precisar mais de livro do que de enxada !” De vez em quando, alguém confundia equação com receita de farofa, mas tudo bem. E Zé, na sua sabedoria de lavrador cansado, sempre achava que a mãe estava certa, mas a dúvida lhe rondava o pensamento : Será que livro dá caldo ?
Anos se passaram. Os meninos cresceram e se formaram. E o que era sonho virou formatura em série : um engenheiro agrônomo (que devolveu dignidade aos tomates), um advogado ( pra brigar com o fiscal da feira), dois médicos (porque família grande tem que ter convênio próprio), um sociólogo (que tentava entender como tudo aquilo foi possível), um dentista (que fez o primeiro canal do pai aos 63 anos), e o caçula, engenheiro mecânico (que modernizou a carroça da mãe só por birra).
Na festa, enquanto o casal celebrava 40 anos de casamento, Zé não pôde deixar de se emocionar. Com os filhos ao redor, agora adultos, bem-sucedidos e com carreiras sólidas, ele virou para Talita e disse, com a voz rouca de emoção :
- Talita, quando a gente começou com essa lavoura, eu nunca imaginei que o futuro dos meninos ia ser mais recheado de diploma do que de repolho. Mas você tinha razão.
- Eu só fiz o que toda mãe faz, Zé. Plantei o que eu podia, mas, ao mesmo tempo, eu semeei sonhos. E esse foi o melhor investimento que fiz na vida.

