Na centenária praça, copulado por entre pedregulhos cobertos de musgo, conforme propagado através dos sussurros do orvalho e das sombras. No silêncio suave de uma manhã há muito desvanecida, sob a ondulada folha de uma samambaia enrugada, nasceu um caramujo diferente de qualquer outro : o Ariovaldo.
Sua concha não era a mais grandiosa, nem seu rastro o mais brilhante – mas em seus olhos lentos e dispostos, brilhava uma luz rara entre a caramujada. Não era o mais rápido, mas era inteligente e cauteloso.
Desde seus primeiros dias, enquanto os outros moluscos corriam em direção às frutas caídas ou ao brilho de pedras aquecidas pelo sol, Ariovaldo mantinha-se imóvel. Observando tudo ao seu redor. Sentindo o gosto da brisa, ouvia o tremor da terra, o aroma dos restos de animais e plantas e fitava as formigas marcharem em fileiras organizadas, notando seu pânico. Quando o sapo chegou com sua língua repentina como um relâmpago, ele já não estava lá.
Havia tomado o caminho mais longo através da sombra da urtiga, evitando a tentação da doce ameixa podre. Assim começou a vida do astuto gastrópode rastejante.
Durante os intensos frios e chuvosos invernos, quando o solo estava encharcado e muitos caramujos se regozijavam, Ariovaldo permanecia sob a casca do oco tronco de cinamomo.
“Água em excesso afoga até quem está no chão”, murmurou para uma jovem lesma que zombou de sua prudência. A lesma, ousada e impetuosa, deslizou para o amplo campo aberto, entusiasmada com a tempestade. Ariovaldo nunca mais viu a lesma. Mas viu a grande pegada do réptil que a seguiu.
Determinada noite em que a área estava imersa em silêncio e aromas estranhos, uma teia prateada estendia-se entre os caules das taquaras, brilhando como um caminho de estrelas. Muitos caramujos mais jovens acreditavam que era um sinal, um caminho para a Casca de Banana Sagrada que, segundo rumores, estava além do monte de compostagem. Ariovaldo observava. A teia tremia não por causa do vento, mas da respiração. Escondida na sombra, a aranha bunduda esperava. Ele deixou um rastro ao redor da borda da teia, tão tênue que não brilhava ao luar. Mais tarde, um pequeno caramujo seguiu esse rastro e foi poupado. Ele falaria de Ariovaldo com reverência até o fim de sua longa vida.
Anos e anos se passaram. Folhas caíam e renasciam. Predadores iam e vinham. Os jardins trocavam de mãos. Flores desabrochavam e depois desapareciam. Mesmo assim, Ariovaldo se movia – comedido, pensativo, vivo. Ele aprendeu a ler o silêncio das corujas, os passos dos gambás, a vibração dos cortadores de grama. Sobreviveu ao sal, à geada, ao veneno e às botas intermináveis de gigantes desatentos.
Compartilhou sabedoria com parcimônia, e aqueles que a ouviram viveram mais. Seus últimos dias foram passados sob as raízes de um eucalipto, onde o solo era sempre úmido e o perigo raramente espreitava. Quando ele finalmente se enrolou dentro de sua concha e nunca mais se mexeu, nenhuma criatura ousou perturbá-lo. Um montinho de pequenas pedras foi deixado em sua homenagem. E o musgo cresceu ao redor.
Até hoje, quando um jovem caramujo para em uma bifurcação de trilha, considera a brisa e desvia-se do caminho tentador – esse é o Caminho de Ariovaldo.

