A floresta amazônica consegue ser, num só tempo, a prova cabal da existência de Deus e sua quase completa inadequação. Trocando em miúdos, há em sua imensidão verde a expressão de magnitude que transcende qualquer tipo de obra humana possível, tamanho esplendor. Noutra camada, a presença do cristianismo, ou qualquer outra tradição religiosa, soa um tanto exótica ao lugar, que combina muito mais com crenças antigas e direcionadas ao culto da própria natureza. Ou seja, não monogâmicas, não proféticas, despidas de contemporaneidade.
Talvez por pensar assim, vejo no afresco que emoldura o altar de uma igreja colombiana uma felicidade simbólica interessante. Há nele uma cena de natureza na qual indígenas – habitantes milenares do lugar – se defrontam com a aparição de Jesus Cristo. Chamo de aparição porque ele próprio está num tom espectral – tem luz própria disposta em uma aura que o coloca simultaneamente dentro da cena e fora da natureza. Sobre Cristo não parece incidir a mesma luz, o mesmo tempo, o mesmo ambiente. Todavia, vê os homens e por eles é visto. Numa só perspectiva, simboliza a chegada da tradição judaico-cristã e do homem branco ao lugar. E sua imposição cultural.
Estudar a História (com H maiúsculo) é compreender a disposição sequencial de muitas histórias ao mesmo tempo. Tem-se como base a tradição ocidental, ainda que ela não dê conta de tudo. Idade Antiga, Idade Média, Revolução Agrícola, Revolução Industrial ou Tecnológica fazem todo o sentido quando centralizamos a presença do homem entre o Norte da África e a totalidade da Europa. Contudo, encontra pouquíssimo eco no percurso oriental e, em se tratando das Américas, muito menos. Até hoje há grupos amazônicos vivendo no tempo da caça e coleta, do arco e flecha, dos idiomas e culturas ancestrais. Há quinhentos anos, então, era só o que havia por aqui.
Neste sentido, a catequização pode parecer uma violência, uma ação de apagamento e substituição cultural. É, talvez. Noutra perspectiva, é a chegada um tanto deslocada no tempo da Boa Nova, a presença do filho de Deus corporificado, capaz de a todos redimir e salvar. Junto consigo, uma série de valores e preceitos éticos destinados a organizar a sociedade. A questão que se impõe: os povos originários precisavam de Deus em suas vidas? Outrora, certamente não. O problema é que não estamos noutrora, e outrora só chegará num futuro distópico no qual o planeta dê uma resetada na ciência, na cultura e na ordem social. Lá onde o genuflexório não estará na capela – será nada além de um tronco caído e o objeto de adoração será, outra vez, o fogo.
Deus nos livre…

