Dádiva autêntica

Me disseram que a fé religiosa era resistência. Suportar, mesmo quando tudo ao redor gritava que ela não fazia sentido. Confesso que nunca consegui entender muito bem esse paradoxo : crer justamente quando não há razão para acreditar. No fundo, vulgarmente me pareceu mais uma forma de teimosia sofisticada, um jeito de confortar corações inseguros diante do abismo da realidade. A religião afinal, me soou desde cedo como uma bela invenção humana para preencher silêncios, impor condutas e, acima de tudo, manter um certo controle social

A Igreja Católica, que sempre me cercou, parecia a maior representante desse teatro. Rica, imponente, senhora de palácios, terras e obras de arte, fruto de séculos de doações arrancadas de reis e fiéis que compravam, em prestações emocionais, a entrada no paraíso. Era uma espécie de banco espiritual com juros invisíveis. Embora abusivos. Vi nos livros de história como a cruz virou espada nas Cruzadas, como o Santo Ofício queimou ideias junto com pessoas e como os missionários coloniais confundiram evangelho com dominação. O amor era pregado no púlpito e a ganância ditava o ritmo nos bastidores.

E como ignorar o peso da intolerância ? Acreditar no sagrado já seria suficiente desafio humano, mas transformá-lo em absoluto, em verdade definitiva, foi a receita perfeita para guerras, perseguições e inquisições. Doutrina se tornou domínio, fé virou moeda de troca e, ironicamente, o evangelho do amor produziu medo e silenciou consciências. Pior ainda, quando penso nos escândalos mais conhecidos. Tantos homens de batina transformam a inocência em objeto de abuso, disfarçam o horror sob a capa da candura. Muitos que se diziam santos ludibriaram ingênuos.

Mas nem tudo na minha convivência com a Igreja foi trágico. Há   sempre   um    lado     cômico ( irônico ? ) na seriedade das instituições. Recordo, por exemplo, da minha primeira comunhão : ninguém da família apareceu. Na capela daquele internato asqueroso, só eu, as freiras e a sensação de que até Deus tinha esquecido do convite. Meu pai, por sua vez, cultivava uma incoerência peculiar : levava sua esposa, eu e meus irmãos à missa, mas ele ficava no carro ouvindo futebol pelo rádio como se fosse oração paralela.  Deus que me perdoe ( !? ), mas no fundo eu achava que a bola rolava mais perto do sagrado do que os sermões.

Questionava também a lógica da hóstia : por que o padre podia mastigar o corpo de Cristo e nós, reles fiéis, tínhamos que engolir sem mastigar ? Nunca tive resposta convincente. Noutra ocasião, descobri que na paróquia que eu era obrigado a frequentar, havia um sistema de controle com marcadores de Inter e Grêmio para registrar a presença dominical. Numa destas circunstâncias – empurrado até o fundo da igreja em função da lotação – encontrei os carimbos e as almofadas sem vigilância alguma. Bastou um instante : garanti todas as missas do ano com um só gesto. Alforria chancelada em segundos.

Assim fui sobrevivendo entre desconfianças, incompreensões e trapalhadas. Hoje, quando olho para trás, percebo que escapei da Igreja com menos culpa do que poderia e com mais histórias do que merecia. Ainda bem que a fé e o carácter foram forjados dentro de casa, longe dos dogmas eclesiásticos. Não virei santo, mas também nunca fui parar na FEBEM*. Talvez seja essa minha maior graça alcançada. E autêntica.

 

*FEBEM – Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor, criada nos anos sessenta.

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