O sol daquela tarde parecia brincar com as sombras no quintal, onde ecoava o riso de três meninas. Ana Maria – mais velha, com doze anos – girava a corda com a seriedade de quem já se sentia guardiã das outras duas. Ana Amélia – nove anos – inventava enredos de princesas e dragões invisíveis, como se fosse autora de um mundo só dela. A pequena Ana Clara – a caçula som sete – corria atrás de uma pequena borboleta amarela que parecia feita de luz. Três irmãs, três corações pulsando afinados, que insinuavam destinadas à feliz simplicidade de uma de uma infância comum no pátio da modesta e acanhada casa no subúrbio de Porto Alegre.
Mas de repente, tudo se dissolveu no silêncio. Uma quietude tão súbita que até os pássaros pareceram se calar. Elas desapareceram sem deixar rastros, como se o vento as tivesse engolido. Não houve grito, não houve despedida, apenas o vazio. A ausência absoluta que, em segundos, roubou três infâncias.
Desde esse dia, a mãe independente Ana Beatriz nunca mais teve paz. Respira como quem busca oxigênio no fundo de um rio denso e escuro. O coração despedaçado, tornou-se propulsor de uma luta solitária. Abandonou linhas, tecidos e a máquina de costura, companheira de muitos anos, para costurar esperança em meio ao desespero. Cerziu assim – para si mesma – uma armadura feita de coragem.
Há cinco anos passou a habitar corredores de delegacias, gabinetes de vereadores e deputados, secretarias de Estado, escritórios abarrotados de promessas vazias. A cada visita, a mesma súplica em tom de pergunta : onde estão minhas meninas ?
As madrugadas tornaram-se testemunhas de sua dor. Seu corpo, outrora robusto, agora carrega a marca da batalha : emagreceu em demasia, mas ganhou resistência. Ana Beatriz não cansa de repetir que não enterrará a esperança enquanto não tiver uma resposta. As três Anas são seus tesouros, sua oração cotidiana.
Noite após noite, mergulhou em estudos que jamais desejou : livros e reportagens sobre sequestros, raptos e comércio de crianças. Mapas, estatísticas e documentos viraram alimento amargo de sua vigília. E se a pobreza a encurralava, a solidariedade de vizinhos e do irmão mantinha de pé uma mulher que já perdera quase todo o peso. Não a fé.
Como se o sofrimento não fosse suficiente, a enchente devastadora levou o pouco que restava. Sua casa, tão pequena quanto carregada de lembranças, submergiu na lama. Ao retornar no baixar das águas, encontrou apenas paredes feridas, silêncio e ausência. Mas decidiu transformar ruína em altar. No aramado que cerca o terreno, pendurou as três últimas peças que costurara para suas meninas. Tecidos que já não serviam a corpo nenhum, mas que suportam a presença das amadas como relíquias. Ali, ajoelha-se todos os dias entre lágrimas e murmúrios, oferecendo ao céu sua prece incansável e o que resta de si.
Para quem passa, parecem apenas vestidos gastos pelo tempo. Para Ana Beatriz, são bandeiras de amor, símbolos de luta e esperança. Em cada dobra do tecido sussurra a mesma promessa : um dia, as três vozes infantis voltarão a preencher o quintal, onde a vida se partiu. Porque só uma mãe sabe transformar dor em resistência e silêncio em oração.
Porque uma mãe não desiste. Jamais.

