No princípio era o Verbo, ou melhor as matas. Florestas com os mais variados tipos de flora e fauna. Verdes planícies límpidas sob o céu azulado. Rios transparentes, sem poluição.
Todas as coisas foram feitas por Ele, e eram perfeitas.
Nele estava a vida, e a vida corria livre na natureza.
E o Verbo se fez carne, e as matas viraram concreto.
As civilizações avançaram como um enxame.
O ferro abriu feridas na terra e o concreto selou suas cicatrizes.
Os campos transformaram-se em fábricas, e as cidades, em colmeias de aço.
Animais foram extintos, rios poluídos, florestas desmatadas.
As cidades cresceram como organismos famintos, o progresso sendo anunciado em outdoors luminosos.
A Era Moderna criou pontes, mas também muros.
Lutou pela paz, venceu guerras.
Loucura, genocídio, milhões de mortos. Demolição, construção.
Conectando continentes, desconectando territórios.
A Era das Máquinas se consolidou.
Robôs substituindo pessoas, máquinas cuidando de corpos.
Humanos brincando nos campos do Senhor.
Selvas de pedra e aço ganhando sensores, monitores, câmeras vigilantes.
A Inteligência Artificial confundindo o mundo real.
O mundo tornou-se feito de muitos códigos e poucos gestos.
O ser humano preferindo o toque frio das telas, negando o calor do outro.
Tudo se dissolvendo na névoa. O passado sendo apagado, o apagado esquecido e a mentira tornando-se verdade.
A elegância, a educação e a gentileza sendo esmagadas.
Promessas vazias, relacionamentos líquidos, zero responsabilidade emocional.
Mentes doentes, ansiosas, esquecendo quem são.
Entre calçadas e arranha-céus cinzentos, o homem solitário.
Solidão doía. Ele desejava que parasse. Mas ninguém o ouvia.
Cada ser conectado em seu próprio mundo digital.
Fechou os olhos. Lembrou do verde, do azul. E então, o homem se fez Verbo. Nele estava a vida. E a vida era luz.

