Tetê Lopes em foto de Betho Giordani

Árvore

Tetê Lopes

Às vezes nos sentimos assim, como uma velha árvore sem folhas, cuja ramagem verde se foi há tanto tempo… Chega-se a uma idade em que nos tornamos invisíveis; ainda trazemos em nós desejos e vontades, ainda carregamos pequenas vaidades que nos fazem escolher a roupa que cai melhor ou o corte de cabelo que mais favoreça, mas já não esperamos por aprovação externa – dificilmente haverá manifestação de fora.

Então vêm à memória os tempos em que esses cuidados eram sempre seguidos de olhares cativados e comentários atenciosos, que alimentavam nossa presunção de que teríamos atingido um desejado patamar de aceitação social. Juventude e beleza, com a arrogância que acompanha esses atributos, eram exibidos qual folhas de árvore viçosa, na certeza de que gerariam belos frutos.

A passagem inflexível do tempo, a percepção de que o empenho em aprimorar o espírito representa um valor intensamente maior do que a atenção excessiva dada ao corpo, tudo isso nos auxilia a encarar a vida e seus desafios de outra maneira. Já não significa muito a beleza física, quando enriquecemos nosso interior com aprendizados que nos tornam mais perceptivos a experiências por vezes triviais, por vezes singulares, mas sempre relevantes. Nascimento dos filhos, chegada dos netos, o ócio bem aproveitado num domingo, morte de pessoas queridas, o olhar agradecido sobre a chuva benfazeja caindo na terra seca, estudos, viagens – ganhos e perdas que refinam nosso modo de enfrentar os bons e os maus momentos vividos.

A consciência de que o processo de envelhecimento é acompanhado por alterações físicas inevitáveis pode nos levar à imagem de uma árvore seca, estéril. Mas, pensando no tanto de conhecimento que se pode partilhar ao longo dos anos, no muito de alegrias que se consegue dividir durante o curso da existência, no constante amor que podemos emprestar a todos os atos de uma vida, é possível nutrir a esperança de que a árvore seca poderá sempre reflorir e até produzir novos frutos.

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