Teimosia

A cidade tem nome de ancoradouro pronto para chegadas felizes. No entanto, foi empurrando seu riolago cada vez para mais longe, quase como um refúgio contra deságues excessivos.

Mas a água, elemento fluido, não aceita limites impostos – ou se derrama das nuvens ou se espalha por entre os caminhos abertos à força.

Não basta haver muros de contenção, taludes reforçados nem margens (mal) reflorestadas; não é suficiente projetar canais por entre as ruas nem aumentar a profundidade dos cursos naturais.

Quando chove, o acúmulo causado pelo lixo ou pela pavimentação leva a um escoamento demorado e, por vezes, infindável para quem sofre suas consequências mais sérias. O som que despenca das alturas tem um ritmo constante e delicado que preenche os vazios de terra e pedra às custas do nosso conforto e segurança.

Porém, existe beleza no espelhamento molhado do céu, dos prédios coloridos, dos passos em busca de abrigo. O reflexo disforme das luzes e o cuidado do caminhar originam um quase balé descuidado em um cenário difuso, onde tudo é recriado ao bel-prazer do olhar lacrimejante dos céus.

As águas retornam inexoravelmente à sua origem; entre os quatro elementos naturais clássicos, talvez sejam o mais resiliente e sua persistência nos prova que a teimosia pode ser bem-vinda, basta saber para onde olhar.

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