Steve Johnson por Sonia Garcia

Fluindo

Sonia Garcia

Diminuiu a velocidade do carro para melhor apreciar a explosão de cores que margeava a estrada. Parecia que haviam enfeitado com uma imensa guirlanda feita por mãos habilidosas. As árvores tinham os ocres mais lindos que jamais vira e o chão era de um verde que nenhuma cartela de tinta poderia reproduzir. O ar era leve e o perfume era o mesmo de um dia que nunca esqueceria. Estava nesse gozo íntimo quando surgiu um painel publicitário mostrando uma estrada com muita neve e árvores secas. Cores e ausência delas. Tinha um defeito congênito: sempre queria sol quando chovia e chuva quando havia sol. Sabia que isto era uma estupidez, mas não conseguia evitar. Não suportava a ideia de que uma coisa exclui a outra. Sempre ansiava por tudo o que não deveria querer. Talvez por ter consciência de que aqui não é o paraíso, vivia constantemente tentada. Era possuída por uma necessidade doentia de não ver o que via e aí entendeu que não ser cega não bastava. Por mais que clamasse a Deus para livrá-la dessa aflição, Ele não concedia a graça, tampouco a libertava. E isso não era divertido. Mesmo nos dias em que a realidade era plena, escorregava para a incerteza. Tivesse coragem iria se munir somente de razão, mas como tinha muito medo, era puro desassossego. Nunca compreendeu o que a desviava do caminho e sentia uma vontade danada de nunca chegar. Quando as cores da primavera explodiam em luzes e ela tomava posse de todos os matizes, a primeira trovoada já anunciava que as flores, daqui a pouco, estariam murchas e as árvores ostentando apenas a secura dos galhos. Tinha aquele desencanto de nunca estar presente onde deveria. Parece que estava permanentemente resgatando alguma coisa que ficou no passado ou que iria encontrar no futuro. De repente, teve uma iluminação e percebeu que hoje era tudo que tinha e que tudo que tinha hoje não era um céu baço com nuvens cinza, pinceladas de um cinza ainda mais profundo, quase negro, nem uma paisagem inóspita. Imediatamente um cisco teimou em entrar no seu olho.

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