Rubem Penz em foto de Leandro Faccini

Interferência ou morte

Rubem Penz

Urbano sou, sempre fui. E meus primeiros contatos com o campo estiveram circunscritos ao caminho de casa em direção ao Litoral Norte, cerca de cem quilômetros em linha reta. Da janela do carro, fazendo contraste com os pastos, encantava-me as plantações de arroz. Nunca vi verde mais lindo – um tapete a convidar passeios. Demorei muitos anos até saber que o solo abaixo da aparente tapeçaria é encharcado, nada convidativo para as corridas de uma criança.

No mesmo caminho, já na altura de Osório, Morro Alto e Terra de Areia, outra visão mágica: os bananais morro acima. Vincent Van Gogh ocuparia muitas telas se visse os tortuosos, e ainda assim harmônicos, caminhos das bananeiras iluminados pelo sol da manhã. Também queria descer do carro para trilhar por aqueles canteiros gigantescos. Isso nunca aconteceu, claro – além de configurar invasão de propriedade, herdei do pai a pouca paciência com paradas na estrada.

Quando o caminho se alterou levemente para o Litoral Sul, outra paisagem instigante: ao passar Capivari do Sul, na altura do Túnel Verde, imensas plantações de pinus para fins de aproveitamento de celulose. As variações eram: árvores crescidas, árvores crescendo, tocos rentes ao solo depois de cortados os troncos. Em comum, o retilíneo enfileiramento vegetal e a aridez do chão em marrom escuro. Nem capim crescia nos arredores. “Essa árvore suga toda a água do solo”, diziam.

Já era homem quando vi trigais e, principalmente, campos de soja. Estes últimos, sim, cultivos radicalmente extensivos: mesma visão até encontrar com o horizonte. Em algumas fazendas, a monotonia era quebrada por uns espaçados capões de árvores de médio porte. Lá estava eu conhecendo a pujança do Planalto Médio e das Missões. Para espanto, tratavam-se de quase chácaras ao serem comparadas com as fazendas do Centro Oeste brasileiro…

Há quem possa se revoltar com meu encantamento diante de uma paisagem monocultural, como se só a mata virgem fosse admirável. Para eles, quero lembrar sermos bem mais de sete bilhões de almas e, para cada uma delas, há um corpo faminto. Um genocídio resolveria a alteração da paisagem. Eu, particularmente, ainda prefiro os milharais…

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