Rubem Penz em foto de Flávio Wild

Eu e os Bondes

Rubem Penz

Eu tinha seis incompletos quando, em março de 1970, partiam os bondes em seus últimos trajetos na cidade de Porto Alegre. Por ser tão miúdo, fico duvidando de minhas memórias. Ainda que desconfiado, a família afiança ter eu andado até o Centro e, de lá, voltado para o 4º Distrito algumas vezes a bordo de uma linha que percorria a Av. Voluntários da Pátria, entrava na Rua do Parque e, depois de fazer um “S” na Conde de Porto Alegre, passava pela Av. Eduardo (como chamávamos a Franklin Roosevelt). Para onde ele ia depois eu não sei – descíamos na Av. São Pedro. Na certa era Navegantes adentro.

Ainda que bem detalhada, essa pode ser uma memória falsa. Afinal, por muito tempo os rastros das linhas permaneceram aparentes e, com isso, faziam com que os carros sacudissem na passada, tornando evidente o caminho trilhado (com o perdão do trocadilho). Porém, mais do que a visão do itinerário, outra lembrança reforça minha existência simultânea com este transporte urbano: o som. Não todo ele. Límpido vem o barulho do bonde fazendo justamente o “S” logo antes de descermos. Agudo, incômodo, raspado. Som de ferro contra ferro denunciando a pressa do motorneiro.

Cresci ouvindo as histórias do pai sobre como fugia do bilheteiro para economizar a passagem e gastar o dinheiro na cantina do Colégio do Rosário. Ou das tantas vezes em que precisou pular do bonde para não sofrer algum safanão do funcionário. Credito a essas sagas aventureiras a verdadeira obsessão que tive em me dependurar no Lilico (um tipo de bonde puxado por um tratorzinho e que fazia linha no litoral) e dele saltar em movimento quando deixava a Av. Praia do Barco para pegar a beira do mar em direção a Arroio Teixeira.

Mas aí já são outras histórias…

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