Rita Rheingantz em foto de Anibal Elias Carneiro

Torna-te quem tu és
Rita Rheingantz
Benito é catador de material reciclável. Com mais seis irmãos, todos nasceram no Jardim Gramacho a 30km de Ipanema, no Rio de Janeiro. O bairro se sustentou por três décadas como o maior lixão da América Latina, sendo o lixo a principal fonte de renda. Soterrado no meio da sujeira e do caos visual onde não se vive, se sobrevive em condições miseráveis. Sem água encanada nem rede de esgotos e eletricidade a gato.
Benito alfabetizou-se tardiamente, na única escola disponível, com uma estrutura de precariedade extrema. Desde então passou a devorar livros. Encontrava-os catando, muitas vezes imundos, rasgados, destroçados ou faltando partes. Lia mesmo assim, o que faltava ele completava a obra. Imaginava inícios, meios e fins de romances, contos, crônicas e poemas. Ignorava os técnicos e religiosos. Encontrou juntos dois dicionários, um português e outro inglês-português que o ajudavam em uma multidão de palavras jamais escutadas.
Não tinha espaço físico onde guardar todos os livros encontrados então trocava com Dinamite, outro catador que também lia por prazer. Benito começou a não conseguir enxergar de perto. A presbiopia foi aumentando gradativamente impossibilitando-o de ler. Desde então doava todos os livros encontrados (os novos-velhos) e os já lidos para a biblioteca da escola ou para o Dinamite.
O trabalho no lixão é braçal, pesado, exaustivo, no sol a pino e dependendo, noite a dentro. Garrafas pet e latinhas eram sempre bem-vindas. Cada caminhão descarregava uma avalanche de tralhas no aterro, a parte reciclável era levada para um galpão e separada por cor, qualidade (agregando valor) e densidade para depois se transformarem em matéria prima ou num novo produto.
Um tempo depois o aterro sanitário foi desativado e junto com isso, a vida daqueles moradores ficou mais miserável ainda, todos os catadores ficaram sem emprego.
A familia toda de Benito já tinha morrido. Ele não teve mais como pagar o aluguel do quartinho que vivia com seus três cachorros inseparáveis Tião, Tampinha e Mulambo. Desde então, começou a dormir nas ruas, no centro do Rio de Janeiro. Ao invés de tocar, cantar e passar o chapéu, declamava textos que lembrava ou inventava em troca de moedas ou algo para comer. Para a grande maioria era ninguém, passava despercebido. Alguns meses depois teve uma parada cardíaca deitado do lado da estação Cinelândia, na frente dos cachorros. Foi levado para o IML e enterrado numa vala coletiva como outros indigentes.
Dizia frequentemente que queria ter no túmulo (mesmo que escrito com giz) uma frase do Nietzsche: “Torna-te quem tu és” .
Benito morreu invisivelmente. Uma foto dele segurando uma latinha com os três cachorros num dia muito quente, na frente do galpão, em Gramacho, foi encontrada dobrada no bolso rasgado da calça.
Tampinha, Tião e Mulambo não sabe-se como chegaram, mas estão lá com ele até hoje. Do lado de fora da vala, até que a morte os separe.

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