Renata Cardoso Vieira em foto de Flávio Wild

Rebelião

Renata Cardoso Vieira

O dia começa tranquilo: acordar, escovar os dentes, colocar o uniforme, tomar café, ir para a escola. O pai, Rogério, apressa a filha para não perderem o bonde. Depois das seis e quarenta e cinco, o próximo só passa as sete horas e não daria tempo de chegar para o começo da aula. Paula sobe o bonde de braços dados com o pai, rumo a escola, pensando nas aulas que teria naquela manhã. Percebe que o pai tem uma expressão séria, cansada e se pergunta se seriam os mesmos problemas de sempre ou algo novo. Não dá voz aos seus pensamentos porque sabe que quando o pai está assim, prefere o silêncio. Em frente ao colégio, Rogério avisa que virá buscá-la na saída.

Na escola, reencontra os colegas bem a tempo do primeiro período de História, percebe que o clima está estranho, como se algo estivesse para acontecer. Mas não entende de onde surge essa sensação, é apenas uma nova aula sobre coisas velhas. Os alunos do ensino médio parecem agitados, mas não seria sempre assim? Escuta alunos exaltados com o preço do metrô, mas não entende o por quê de tanto alvoroço. E a manhã passa voando entre o abrir e fechar dos cadernos e livros, com a mão cansada de anotar.

Na porta da escola o pai lhe espera, parecendo ansioso. Avisa que Santiago está um caos, estão fechando o metrô e quebrando tudo na cidade. Agarra sua mão com força, e Paula consegue sentir a tensão que ele sente. Precisam se apressar, logo o bonde não estará mais funcionando e eles não têm dinheiro para um táxi até em casa. Lá estarão seguros. Paula sente o peito apertar e apressa o passo numa corrida suave para acompanhar o caminhar acelerado do pai. Chegam na estação quando o último bonde está prestes a sair e, a caminho de casa, surpreende-se com o tanto de gente nas ruas: meninos, adultos, policiais. Aventura-se a questionar coisas que nunca perguntaria, porque não entende como um dia normal explodiu em tantas emoções diferentes.

– Por que essas pessoas estão tão agitadas, pai?

Rogério suspira, como se não soubesse por onde começar enquanto olha pela janela.

– Paula, você é muito pequena, não vai entender direito, mas as pessoas estão cansadas.

– Cansadas de quê? – pergunta Paula.

Após um minuto de silêncio, Rogério olha para filha e explica:

– De tudo um pouco! Cansadas de darem tudo de si e receberem tão pouco. Cansadas de ver seus pais sofrendo com aposentadorias tão pequenas. Cansadas de ver os grandes tirando vantagem dos pobres. Cansadas de ver seu dinheiro desvalorizado e suas famílias entristecidas pelo sufoco.

Paula escuta com atenção cada palavra e fica quieta no seu canto refletindo. Quando o bonde entra na sua rua, pega a mão do pai e fala: ao invés de ir para casa, devíamos ajudar aquelas pessoas, afinal o cansaço delas é o seu também.

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