Papel de parede

A arte rupestre, segundo analistas, pode existir há trinta mil anos antes de Cristo. Já eu penso que essa é a idade das mais antigas documentadas, pois desenhar nas paredes das cavernas pode ter nascido com a primeira curva de neurônios para além do instinto na direção da fantasia, da expressão, do espanto. Uma coisa tipo “eu estive aqui” ancestral. Ou “Toniolo”, sei lá.

Tal tese combina com o desenvolvimento infantil. Se, ao nascermos, temos apenas os movimentos instintivos de sobrevivência (como o de sugar), depois vamos nos arrastando, engatinhando, andando igual a um chimpanzé para, enfim, caminhar sobre duas pernas com a segurança da Gisele Bündchen na passarela. Alguma coisa parecida acontece ao ver uma parede branca. Qual criança escapa do impulso do giz de cera? Ou, pior, da canetinha? Desenhar nas paredes é mais do que tentação – é resposta ao primitivo que existe em nós.

Por falar em primitivo, só pode vir deste movimento peristáltico da evolução da espécie a vontade incontrolável de fazer merda presente nos pixadores. Gastasse metade da coragem, dez por cento do dinheiro investido e noventa por cento da necessidade de aparecer, essa soma em causas nobres – nossa! – iria faltar lugar em ONG humanitária. Acho que faltou uma pia cheia de louça na rotina do pessoal do spray.

Agora, quando vejo arte consistente ocupando as paredes da cidade, chega a me dar um troço aqui dentro. Seja com mensagens pertinentes, seja com imagens de impacto, o grafite é o irmão caçula dos afrescos renascentistas. Rebelde por natureza, existe para ocupar um espaço nobre em nosso horizonte. Bem-vista seja a cidade que acolhe, estimula e apoia os grafiteiros. Bem-vindo esse papel das paredes!

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