Maria Amélia Mano em foto de Tom Saldanha

Pequeno poema de trazer de volta

Maria Amélia Mano

Trago seu amor de volta em sete dias. Leio e desconfio. Assim não é real. Resolvo saciar fome que começa a ser incômodo.

Passarinho marrom, simplinho, se atravessou na mesa da praça de alimentação barulhenta, enquanto eu comia e sonhava, buscava palavras para uma escrita, uma história. Por onde entrou? E olhei no teto baixo, a fenda, o vão, invasão, espaço de entrada alienígena. Passarinho, não sei se achou caminho de volta, mas eu achei inspiração. Pequenices nos acordam de transes cotidianos, solitários.

Disseram, em piada, que eu era mulher de bolso. Rebelde pigmeu, respondi que podia sair grudada em vidro de carro, em ventosa. Que em pequenos frascos, havia microdoses de cicuta. E lembrei da folhinha da erva daninha nascendo em vaso de orquídea ornamental. Ácaro, pó e pólen em alérgico e as bactérias da sujeira da unha do mindinho do menino descalço. Pequenices são perigosas e fortes, insolentes.

Trago seu amor de volta em vinte e um dias. Leio na saída do almoço e relevo. Parece mais coerente do que sete dias. Mas mesmo assim, desacredito. Vou de café na esquina.

Lembro que café passado de esquina é o melhor. No oriente, a borra no fundo da xícara prediz o impossível futuro. E o sermão do louco na praça diz verdades eternas.  Ao lado, a sombrinha de papel azul no drink, os enfeites da árvore de natal de tsurus e o toco de vela no despacho na esquina. O fris no cabelo da menina que passa preocupada. Pequenices são detalhes ternos, leves, significativos, incomodativos.

Ponta dos dedos, da língua, do seio, bico, de gás, de passarinho na fonte, de novo, ele, roubando a água, ponta de areia, ponto final. Canção antiga, amiga, que salta e segue na alma, no dia, cantando, seduzindo. É noite, o espermatozoide decidido, solto, livre, rápido, forte, nada louco pra fecundar. Pequenices são sedutoras, revolucionárias, surpreendem, geram, mudam o mundo em segundos.

Trago seu amor de volta melhor do que era antes. Leio no jornal da cafeteria e rio sem jeito do sem jeito. Com o murmúrio do dia, rascunho um hai kai ruinzinho no guarda-napo de papel. Não vai trazer de volta nenhum amor. Mas traz ternura e carinho nesse meu tempo de pequenices.

 

 

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