Maria Amélia Mano em foto de Anelise Barra Ferreira

Media Luna

Maria Amélia Mano

 Para que serve a utopia?

Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Eduardo Galeano

Cheguei de tarde, sol de quase-verão e esse amor inconfessável pelo ofício solitário de conspirar e me esconder. Caminhei e escutei meus passos no silêncio das ruas antigas e, no segundo dia, nublou. Mesmo assim vi céu lindo e esperei luz de lua crescente, essa que me explica cirandas, ciclos, enche meus mares, amares, inspira minhas marés e acolhe minhas manias e marias, muitas, tantas.

Lua influencia também esse rio que nasce nas Gerais. Rio Paraná, onde o pai de um amigo fez sua última pescaria na fronteira com o Paraguai. Rio de Rosário que traz pedras e histórias de leitos e margens por onde passou. Rio que me faz no dia três, pedir por notícias da minha terra, dos meus amigos, de gente minha, aqui, nessa cafeteria, com esse guarda-chuva virado, essa tormenta, esse poema de Galeano.

No quarto dia, sabores doces e amargos, pimenta que nem sempre sei dosar pra não chorar, sentir sede de tanta água, da Santa água que escorre, morre, erra em um sem fim de espelhos d’água. Fonte das Utopias, reflexos nas poças na rua, o sobrado coberto de hera: refúgio. Giro a chave antiga que abre a porta do meu quarto azul. Pé direito alto como igreja. Cano cinza como submarino. Ventilador como helicóptero.

Chegar em lugar estranho é um querer sem querer, descanso e tumulto. Cheiro de madeira e clarão do relâmpago no vidro da porta imensa me ensinaram a dançar com ausência, festejar caos. E no quinto entardecer, intuição: folheei livro de Alan Poe em sebo escondido. Senti que há um fim para mistérios, todos. Todos serão encontrados, descobertos. Até o cão Téo que grudaram foto na parede do sebo. Até eu.

No sexto dia, cuidei esquinas desabitadas, espreitadas. Caminhei em zigue-zague pra despistar. Tudo em vão. Não havia mais esconderijos. Cada passo era entrega. Havia olhos em tudo e todo partir era urgência. Na manhã do sétimo dia, voltou o sol e acharam Téo, o poodle perdido. Não resistirei. Confessarei essas tardes de chuva morna. Esse quarto azul voador, nadador que parece igreja e eu nem rezei.

Pedirei que me deixem onde possa escutar ruído de família, tampas de panelas e colheres batendo nos pratos. Vozes famintas de uma América de Sol e de Lua ficando cheia. Pão, papel e caneta, o que sempre me sacia da fome de sabor e poema, corpo e alma. Por último, quero a foto antiga do meu pai me segurando enquanto eu aprendia a engatinhar.

Sim, é verdade. Ali foi onde começou a subversão, a conspiração, a rebelião, a revolução, em mim.

 

 

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