Laço firme, braço forte

Certo, o Laçador não é nenhuma Torre Eiffel, Cristo Redentor ou Estátua da Liberdade. Quer saber? Nem precisa, mesmo: Porto Alegre não é Nova Iorque, Rio de Janeiro ou Paris. Como uma roupa sob medida, nossa estátua não falta nem sobra. Impressiona mais pela beleza do que pelo porte. E não lhe falta altivez.

Ainda assim, devo confessar: bem como um pátio da infância, o Laçador já me pareceu maior. Nascido na Zona Norte – no bairro São Geraldo – e habitué da BR 116 para irmos quase semanalmente até Novo Hamburgo, passava pela estátua com muita frequência e – oh! – parecia gigante. As novas gerações não sabem, mas, antes do alargamento das pistas, o gaúcho de bronze estava bem no meio do caminho, impossível não ser visto por quem chegasse à capital. Subíamos o olhar para vê-lo. Ele, por sua vez, mirava o horizonte um tanto acima de nossas cabeças. Um guardião.

Pela lembrança infante, sempre me pareceu mais imponente à noite. Como a cidade no geral era iluminada por luzes brancas meio fracas, as potentes luzes amarelas que nasciam no Aeroporto Salgado Filho e serpenteavam cidade adentro pela Av. Farrapos faziam daquele corredor um estádio aceso, um Natal o ano inteiro, um pedaço de dia rasgando a noite. E tínhamos lâmpadas de baixo para cima fazendo o Laçador se destacar. Formava, na companhia do afresco “A conquista do espaço” do Locatelli, meu par de obras de arte predileto até uns quinze anos de idade.

Eu cresci, o aeroporto cresceu, cresceu a cidade e o Laçador permanece do mesmo tamanho. Foi transportado até uma coxilha artificial para, quem sabe, alcançar Canoas em sua visada. Canoas, aliás, também ganhou outro porte. Numa cidade verticalizada e cada vez mais veloz, a envergadura do gaúcho já não chama mais a atenção. Ainda assim, sempre que estiver com quem aterrissa em Porto Alegre pela primeira vez, farei questão de apontar a estátua. E resistirei em abaixo-assinados tantos ao ímpeto de trocarem ele de lugar. Exatamente como um pátio da infância, quero que as novas gerações lembrem do Laçador firme e forte na porta da cidade.

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