Guy Billout por Soraia Schmidt

Trampolim

Soraia Schmidt

Era feriado de carnaval e quem pôde rumou para o mar, mesmo que fosse só pra fugir do calor, embora nem todos gostem da praia e suas areias, de povo aglomerado e sol, duvido que alguém não goste, pelo menos, de uma brisa fresca.

A ordem era de aproveitar o esvaziamento da cidade e secar as piscinas. Ocasião especial para a limpeza, antes de iniciar a competição. O serviço começaria na segunda. Na tarde vazia de domingo, a 40 graus, Josinaldo rendeu-se à tentação. Desgrudou-se do rude e empapado uniforme de vigia, ficando só de cuecas. Afinal, ninguém haverá de saber, pois era o único ser vivo nas dependências do clube. Depois de um breve refresco de libertação, subiu ao trampolim. Queria ver o que viam os atletas lá das alturas.

Teria coragem de pular? Se refrescar, de súbito, num mergulho. Do nada ao tudo!?

Mas, parado, lá ficou. O que lhe impactou foi a pulsação da cor, o profundo do azul, que agora inundava tudo o que antes era piso, concreto, cinza. O movimento sutil daquela massa d’água, como se fizesse singrar pensamentos, mover e remover ideias e trazer à tona aqueles, até então estagnados, naufragados na poeira do seu chão raso.

A mudança de perspectiva de olhar; ver as coisas do alto. Ele até sentia-se grande em sua pequenez, naquela altura de estar ali. O chão era líquido. Aquele mundo era líquido. Aquilo o absorvia e seduzia, estranhamente. Ficou inerte, imobilizado, abduzido.

Poderia mergulhar? Se atirar? Pular? Voar?

Não. Não arriscaria. Ficou ali a mergulhar olhar e pensamentos. O que fazia aqueles garotos saltarem? Liberdade? Prisão? Pressão?

O que ele enxergava, não conseguiu traduzir bem. Mas aquele mundo líquido que se moldava e desfazia-se constantemente, cheio de mistérios e descobertas, não era o seu. A este, não pertencia, intuía apenas, pois guardava algo dentro de si.

Sabia que, se saltasse, perderia o sustento; quebraria o pescoço. Morreria.

O seu mundo era duro e sólido. Térreo.

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