Douglas Smith por Maristela Rabaiolli

Elo de amar

Maristela Rabaiolli

É primavera, mas não parece. Lá fora cai uma chuvinha fina. Está nublado e faz frio. Um típico dia de inverno. Olho pela janela e observo um caminhão de lixo, que mais parece um tanque de guerra, estacionado num espaço muito apertado, aparentemente sem saída, entre edifícios. Observo a cena e me questiono como o motorista fará para sair daquela sinuca de bico em que se meteu.

A imagem me fez pensar no quanto pode ser difícil um indivíduo tentar sair de uma situação que o oprime e lhe traz infelicidade. Quando não logra êxito, o resultado pode ser trágico. Quem já viveu um abandono sabe do que estou falando. Atire a primeira pedra quem nunca levou fora do namorado, passou por uma separação ou presenciou um episódio de rejeição. Nesses momentos todos os dias parecem cinza e não sabemos que rumo tomar.

A sensação que experienciamos quando nos sentimos desamparados é a pior possível. Imaginem quem sofre de depressão. Esse sentimento de abandono profunda e infinita é elevada à décima potência. O depressivo não vê saída para os seus problemas e, por isso, muitas vezes recorre ao suicídio. A dor é tão profunda que é preciso alívio imediato. Ele não vê saída. Também não percebe que as portas, que parecem fechadas, não estão de fato, e com um empurrão podem se abrir para jardins multicores.

O suicida em potencial simplesmente não vê as possibilidades que se descortinam à sua frente porque está temporariamente cego. Mas o que leva alguém a tirar a própria vida? Muitas são as razões: desespero, desamor, desamparo, tristeza e depressão são algumas delas. A situação é tão grave que, no mundo, mais de um milhão de pessoas, anualmente, são vítimas desse mal. Em 2003, a Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu o 10 de setembro como o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Mas a história começou bem antes. Em 1994, o americano Mike Emme, conhecido por sua personalidade carinhosa, deu fim à própria vida. Ele tinha apenas 17 anos. Sua marca registrada era um Mustang 68 que ele mesmo restaurou e pintou de amarelo. No funeral, os amigos colocaram cartões e fitas da mesma cor em um cesto com a mensagem: “Se precisar, peça ajuda”. A ação expandiu-se pelos EUA e pelo mundo.

Aqui no Brasil, o rapper Emicida também levantou a bandeira do Setembro Amarelo e compôs a música AmarElo, chamando a atenção para esse grave problema que não escolhe etnia, idade ou classe social. O refrão, retirado da letra Sujeito de sorte, de Belchior, repete: “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. Sob o clip, inúmeras manifestações de internautas declaram que a música os fortaleceu e os impediu de cometer suicídio. Sempre é bom lembrar que naqueles dias em que estamos nos sentindo um lixo, desamparados, numa situação aparentemente sem saída, vale a máxima: “Só a Arte salva”. Façamos, então, do amar um elo. Salvemo-nos.

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