Bintu

A avó de Bintu foi escrava, mas seus filhos foram ventre livre.

O pai de Bintu cresceu menino de estância, acordando para a lida antes do sol nascer. Tomava o mata-bicho e ia ordenhar a vaca, tirava o leite pro café da manhã dos patrãozinho. O dia passava com a peonada, levando gado, tosquiando ovelha, consertando cerca. Quando a noite deitava nas coxilhas, depois de comido o carreteiro com feijão e farofa, era hora de ir pro galpão onde dormiam. Ali tinha um fogãozinho a lenha para aquecer as noites frias da serra. Embrulhados no poncho, ao redor fogo, os peões contavam causos. Tinha mate e goles de pinga. Algumas canções dedilhadas na guitarra rústica de um xiru.

Foi na cozinha que ele conheceu a Preta, prenda de sorriso largo e ancas pronunciadas que lhe encheu os olhos e a vida. Fizeram muitos filhos, nascidos sempre na estância. Entre eles a menina chamada Bintu.

Faceira, doce como favo de mel, a pretinha aprendeu as lidas da casa e da cozinha acompanhando o trabalho da mãe. Foi daí que os filhos do estancieiro vieram para as festas do final do ano.

Bintu chamou a atenção de Sarita, filha do estanceiro, que a levou para Porto Alegre, para trabalhar na no apartamento, cuidando das crianças, limpando a casa e cozinhando. Dormia em um quartinho, perto da lavanderia. Herdou o talento da mãe para cozinha e foi aprendendo com a patroa pratos cada vez mais sofisticados. Cozinhava e servia as refeições e, depois de todos comerem, era a hora de provar seus próprios quitutes. Aprendeu a driblar a comida fria e os restos reservando a melhor parte em um prato que guardava no forninho.

A patroinha chamava os amigos para jantar em ocasiões festivas. Bintu organizava o banquete e, eventualmente, era contratado um garçom para servi-lo. O tempero e o sabor chamaram a atenção de uma amiga de Sarita e, dias depois, Bintu recebia um gorda oferta para trabalhar na casa dela.

Bintu teve que se encher de coragem para romper as amarras históricas que a prendiam a Sarita. Pela primeira vez assumiu a cidade como seu lar e, sentindo-se dona de seu nariz, saiu do apartamento para uma vida solo. O novo salário dava para alugar um quarto. Tinha dias de folga e descobriu as festas e os amigos.

Conheceu Edson, um preto perfumado e alegre, que dançava muito bem. Fizeram uma filha e foram morar em uma casinha na periferia.

Bintu tinha seu trabalho, seu dinheiro. Sempre reservava uma parte do salário para comprar casa própria e educar a filha. Edson perdeu o emprego de vigia e começou a beber. Não demorou muito passou a derramar sua infelicidade sobre as mulheres da casa. Teve cirrose e foi internado em um hospital.

Na internação foi acompanhado pela mulher e pela filha, então com oito anos. Elas se despediram dele dizendo retornar no outro dia.

Bintu respirou fundo, engoliu em seco e se livrou da pena. Naquele mesmo dia esvaziou a casa e se mudou para um canto bem distante daquele que compartilhou com Edson. Nunca mais o viu.

Criou sua filha e hoje tem netos. Todos moram em sua casinha própria de madeira, localizada no alto de uma lomba. Bintu sente-se rica em dignidade.

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