Jane Ulbrich em foto de Gabriel Munhoz

AQuem

Jane Maria Ulbrich

Distraída, na parada do ônibus com seu celular, não percebeu quando o carro escuro, de vidros mais ainda, parou. Sequer a aproximação de dois de seus ocupantes. Ao ser agarrada firmemente pelos braços, levantou a cabeça assustada. Mais assustada ainda ficou ao ser colocada no porta-malas do veículo. Retiraram o celular de sua mão. Fecharam o tampo. O automóvel arrancou em alta velocidade. Mal podia se mover. Alguma coisa dividia com ela o porta-malas. Passou as mãos e gelou ao perceber ser um colchão. Cheirava mal. Imediatamente enjoou. A cabeça e as costas batiam duramente a cada buraco e curva que o carro fazia. A música começou ensurdecedora. Como se distraíra tanto? – pensou. Não conseguira ver ninguém. O que faria? Começou a chorar. Que estúpida! – sentenciou. Após um longo trajeto, numa estrada muito esburacada, o carro parou. Gelou. Tremia. Um frio tomou conta da sua barriga. O tampo abriu. Uma lanterna voltada para seus olhos não a deixava abri-los. A música silenciou. Risadas. O colchão foi retirado e ouviu a disputa para saber quem seria o primeiro. Não conseguia mais controlar suas mãos de tanto que tremia. Foi arrancada do carro. Na retirada das roupas da parte inferior do corpo seu intestino não resistiu e eliminou todo o conteúdo ao mesmo tempo em que vomitou. Com o odor nauseante foi atirada ao chão e recebeu o primeiro dos tantos raivosos pontapés. Os piores xingamentos. Desfaleceu. Acordou com dificuldade para respirar ou se mexer. Tudo doía. Silêncio. Frio. Apenas a claridade da lua. Acordou novamente sentindo o sol. Olhou para o lado. Enxergou a bateria. Os copos. As flores coloridas e no fundo a sepultura. Não fui a primeira, pensou. Apagou de novo, convicta de que também receberia uma cruz. As muitas lambidas pegajosas em seu rosto a despertaram. Que é isto? Sentiu que lhe cheiravam a orelha direita e após, latidos. Várias vezes o cão se aproximava. A cheirava, lambia e saía correndo em disparada. Finalmente alguém veio gritando – O que tem aí Brasinha? O cão latia continuamente. Ouviu passos. Um grito clamando por Nossa Senhora. Uma mão tocou seu pescoço em busca de pulso. O distanciamento. A ligação para a Polícia relatando a situação. A aproximação e ser coberta com alguma roupa. Ouviu: – Fique calma garota, a SAMU e a Polícia já estão a caminho. Fechou o olho lambido em dúvida: agradeço ao intestino ou ao Brasinha?

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2 comentários em “Jane Ulbrich em foto de Gabriel Munhoz”

  1. Muito bom o texto. Flui bem.
    A história é bastante esplorada, mas com a inclusão do cachorro e a diarréia, ela saiu do lugar comum, criando uma alternativa verossímil e inteligente
    Repetiçào da palavra “gelou” não é pecado
    Se bem me lembro o Brasinha não ia lamber o olho! Kkkkk
    Parabéns, estás escrevendo cada vez melhor.
    Beijos mil

    1. Mário, bacana comentar! A Jane estava preocupada: seu comentário estava a aguardar mediação… Culpa minha! Abraços, Rubem

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