Rubem Penz em foto de Gilberto Perin

Tarde

Rubem Penz

Eu vi. Você também. Todos viram. Está em destaque no estatuto jamais escrito para os amores furtivos:

Quando à noite, cortinas cerradas; pela manhã, no máximo o etéreo filtro de um voil dançando na brisa; depois do meio-dia, porém, deixe o sol entrar, entregue-se ao vento, escancare as janelas.

Se a moça sofrer algum constrangimento, uma vergonha diante de visadas vizinhas, diga apenas – agora é tarde.

Se a moça desconfiar que rumou dos sussurros aos apupos e, deles, para os gritos incontidos, diga apenas (e em seu ouvido) – agora é tarde.

Se a moça esquecer (propositalmente?) do envolvimento dos lençóis para ir da cama ao banheiro, desfilando nua diante da janela, pense apenas – agora é tarde.

E sorria.

Porque amores furtivos à tarde existem para dar inveja aos que não amam.

Existem, claro, para escandalizar os que esqueceram como são os amores.

Existem para revoltar os que nunca souberam nada sobre amores furtivos.

São amores que insistem em confrontar a ordem moral.

Amores que explodem para restabelecer a ordem natural.

Bem ou mal, são amores. Amores que resistem.

Há quem passe tardes inteiras munido de binóculo em olhares ansiosos sem encontrar amores; há quem tenha a sorte de mirar amantes habituais enquanto, sim, há os que amam – dando sentido aos demais.

São furtivos os amores da tarde porque roubam dos insones a promessa de sono tranquilo no pós-coito. Eles passarão madrugadas inteiras em vãos na busca do sexo alheio.

Não, por favor, nunca traia expectativas. À tarde, lembre-se, cumpra o estatuto que jamais escreverei. O que saberia eu sobre amores furtivos?

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