Silvia Duncan em foto de Gabriel Munhoz

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Silvia Duncan

Ao amanhecer, o banco frente à praia, me convida a sentar.

Pego a companheira de sempre – a bengala de ébano – e o chapéu de palha que ciumento quer ir. A passos miúdos, atravesso o chão de terra batida, fecho a porta da casa e digo, já volto.

Acomodo o corpo ossudo na pedra fria e olho o rio num estreito abraço com o céu. Brinco de adivinhar as figuras que as nuvens desenham, tal criança.

O barco de pesca, largado há muito na areia, me lembra o gosto da saudade.

Gosto de fel, subindo pela garganta e faz a gente chorar.

Na memória, falha, ouço a gritaria dos filhos brincando na areia, mãos pequenas dentro das minhas em direção a agua e a mulher gritando: Cuidado! não vão muito fundo.

Enxugo as lágrimas, coisa de velho bobo. Os raios de sol me abraçam, neste dia de luz, e a brisa desliza na canção.

As pálpebras vão ficando pesadas, pesadas.

Navego, então, em direção a águas profundas.

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