Soraia Schmidt em foto de Gabriel Munhoz

Azul

Soraia Schmidt

Não sei se é mero acaso. O azul está no ar, no mar, no céu. Dá paz. Combina com silêncio. Descansa; olhos, corpo e alma. Dá vontade de voar.

No agito do dia a dia, engolfados por pressas e preocupações, consumidos por consumismos, embotamos nossos sentidos. Eles ficam presos. Sequestrados.

Eu acho fantástico quando, de repente, algo nos impacta a ponto nos paralizar. Uma cena, uma frase, uma música, um sorriso de criança, ou outra coisa qualquer que faz sair, escapulido da alma um:- OHHH!

Misto de susto, surpresa e muita satisfação. Prazer genuíno. Lá das profundezas do Id. Escapam alguns sentires e, num assombro, nos tiram daquela inércia árida. Conseguimos, além das pálpebras, abrir o olhar. Ver e sentir as coisas simples. Ficamos leves e felizes para o sempre da duração daquele instante. Por nada. Só de ver, perceber e viver uma coisa belapura. Esta energia é igual àquela que se gera quando jogamos uma pedra num lago. De dentro pra fora, vai se amplificando e expandindo. Renovamos as forças, o ânimo. Mudamos o rumo do dia ou da noite.

Isso acontece comigo, por exemplo, quando no pesado trânsito vespertino, dou de cara com a lua cheia no alto da subida da Lucas de Oliveira ou da Protásio. E então sai:

-OHHH! Susto bom. Mágico. Inebriante.

E agora, ao ver esta foto; paraliso:

Céu azul, mar azul,

Na borda do horizonte se emendam, ao infinito.

Mal consigo respirar.  Tanta beleza que silencio.

Deito naquela borda entre os dois azuis,

Nuances de uma coisa só.

Seria isso Deus?

Nada mais consigo, só evaporar.

Me desfaço e me integro ao todo. Ao tudo que é nada; ao nada que é tudo.

Vôo nessa imensidão, abduzida, inteiramente.

Só paz, silêncio, pulsação. Sem matéria.

Só o azul.

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